sexta-feira, 5 de janeiro de 2018



AVE NOTURNA: A POESIA EXISTENCIAL DO BARDO CEARENSE RAIMUNDO FAGNER *

Francisco Júnior Damasceno Paiva
Universidade Estadual da Paraíba – UEPB

1.    INTRODUÇÃO

“Hoje eu só acredito no pulsar das minhas veias / (...)
Nesta estrada, só quem pode me seguir sou eu / Sou eu, sou eu, sou eu...”
Noturno (Graco e Caio Sílvio, Beleza: 1979).

O objeto de análise do presente artigo, Ave Noturna: a poesia existencial do bardo cearense Raimundo Fagner, será a produção autoral do cantor, instrumentista, poeta e compositor Raimundo Fagner. Para isso, iremos analisar principalmente as canções de sua autoria, ou em parceria com outros compositores, destacando os aspectos estilísticos, políticos, sociais e filosóficos dessas músicas. O que não nos impedirá de considerar canções não autorais, como também os vários poemas que o cantor musicou ao longo de sua carreira.
Raimundo Fagner Cândido Lopes nasceu em Fortaleza – CE, no dia 13 de outubro de 1949, mas foi registrado no município de Orós – CE, filho de pai libanês e mãe cearense. Canta desde menino e iniciou sua carreira na década de 1970.  É uma época bastante conturbada e agitada do nosso país, tanto no cenário político como cultural. Fagner vem de um grupo que ficará conhecido depois como o “Pessoal do Ceará” e logo se destaca no cenário musical nacional. Dono de uma voz inconfundível e um estilo marcante, faz uma música ao mesmo tempo regional e universal. Uma marca do seu trabalho é a parceria com grandes compositores e também o seu interesse por literatura, principalmente a poesia, o que o levou a musicar importantes poemas de grandes escritores do nosso e de outros países, como Cecília Meireles, Ferreira Gullar, Francisco Carvalho, Patativa do Assaré, Florbela Espanca, entre outros.

2.    A FILOSOFIA DA EXISTÊNCIA NAS CANÇÕES DE RAIMUNDO FAGNER

É preciso sair pelo mundo
Procurando somente encontrar
É preciso alcançar a aurora
Que a noite teimou em fazer não chegar
É preciso entender que a vida quer um jeito de resistir
É preciso saber que agora
A aurora não pode esperar por vir.
Além do Cansaço
(Petrúcio Maia & Brandão,
Raimundo Fagner, 1976).

Pretendemos analisar a música do Fagner a partir de uma interpretação filosófica existencial. Esta característica é claramente percebida nos primeiros álbuns do cantor, talvez pela sua juventude ou mesmo pelas influências do contexto cultural da época; da contracultura, do movimento hippie, da resistência à ditadura militar, de Woodstock, etc. Fato é que podemos encontrar um traço que acompanhará o artista em seu trabalho, em especial, nos seus primeiros discos; uma postura de rebeldia, de insatisfação e de questionamento do status quo e da própria existência. Dois álbuns do Fagner são emblemáticos neste aspecto, o seu segundo LP Ave Noturna de 1975 e o LP Raimundo Fagner de 1976. Ambos são discos autorais, fortemente marcados pela veia poética, sentimental e existencial do jovem Raimundo Fagner. O eu lírico do poeta se manifesta nestes discos em canções como Ave Noturna, em parceria com Cacá Diegues e em Asa Partida (Abel Silva e Fagner), Pavor dos Paraísos (Capinan e Fagner), Corda de Aço (Clodô e Fagner), entre outras do terceiro álbum do cantor. Essa tendência já podia ser percebida em algumas faixas do seu primeiro LP Manera Fru Fru Manera de 1973, como Mucuripe (Raimundo Fagner / Belchior), Como Se Fosse (Raimundo Fagner / Capinan) e Sina (Raimundo Fagner / Ricardo Bezerra / Patativa do Assaré).
A questão a ser levantada aqui é a relação entre Filosofia e Literatura na expressão poética do cantor Fagner, sua carga existencial, sem que esta deva estar necessariamente ligada a alguma corrente filosófica especifica. No entanto, o próprio compositor afirma em diversas entrevista que leu os filósofos existencialistas, em especial Jean-Paul Sartre.  
O interesse pelo tema surgiu da observação de temas filosóficos presentes nas canções de Fagner, principalmente no início de sua carreira. No entanto, nos últimos anos ele vem retomando antigas parcerias e realizando CDs cada vez mais próximos de suas origens, como é o caso de Pássaros Urbanos de 2014.
Outro motivo para estudar esta temática vem da minha prática no ensino de Filosofia com Arte, principalmente da Literatura, com destaque para a poesia.
A música é um forte e importante instrumento de disseminação da arte e da cultura no nosso país. Ela aproxima o erudito e o popular e pode ajudar na transmissão de conteúdos fundamentais na educação e na formação da cidadania. Infelizmente não é isso que ocorre atualmente com a banalização dos valores e a péssima qualidade da música feita nas últimas décadas no Brasil. Mais um motivo para pesquisarmos a música dos anos 1970 e 1980, período de grandes nomes da MPB, como é o caso de Raimundo Fagner.
Temos uma vasta produção a ser pesquisada, além de trabalhos acadêmicos sobre a Música Popular Brasileira; temos também a discografia do cantor disponível na Internet, sites, blogs, livros, filmes, dicionários da MPB, revistas, jornais e entrevistas de Fagner para a TV.
A relevância da contribuição de Raimundo Fagner para a nossa música e a nossa cultura é inegável. A aproximação que ele faz da música com a poesia é original e ajudou a divulgar e popularizar grandes escritores, a exemplo de Florbela Espanca, Patativa do Assaré, Francisco Carvalho, Fausto Nilo, Ferreira Gullar e Cecília Meireles, entre outros; tanto brasileiros como de outros países.

3.    ALGUMAS CONCLUSÕES PARCIAS E UM RECOMEÇO

Nenhuma ave noturna
Tão triste não pode ser
Eu sou igual ao deserto
Onde ninguém quer viver

Eu sou a pedra de ponta
Areia quente nos dedos
Eu sou chocalho de cobra
Incêndio no arvoredo

Eu sou vereda de espinhos
Seca flor no juazeiro
Fogueira do meio dia
Eu sou o tiro certeiro

Nenhuma ave deserta
Noturna não pode ser
Eu sou igual ao tão triste
Onde ninguém quer viver

Ave Noturna, (Fagner e Cacá Diegues) Ave Noturna: 1975).

            As décadas de 1960 e 1970 no Brasil foram de grande efervescência política e cultural. Paradoxalmente, vivíamos numa ditadura militar e, apesar dela e contra ela, os jovens atuavam nos mais variados setores da sociedade, de forma rebelde e revolucionária. O país experimentava avanços principalmente no campo da cultura e da educação, frutos da década anterior. Infelizmente grande parte desses avanços serão barrados pelo golpe militar de 1964.
            No panorama filosófico, o país começa a receber influências da filosofia do pós-guerra vindas da Europa e dos Estados Unidos. Em 1960, o filósofo Jean-Paul Sartre visita o Brasil. Outros pensadores, tanto europeus como norte-americanos, vieram ao Brasil nesse mesmo período. No mundo, o existencialismo será a corrente filosófica que mais se popularizará, tornando-se uma verdadeira moda entre os jovens ligados à arte, à cultura, à política e ao universo da intelectualidade em geral. Não será diferente com o jovem Raimundo Fagner. Atento e antenado com o que estava ocorrendo no mundo, Fagner irá trazer para a sua música as novidades, na forma e no conteúdo, daquilo que estava sendo feito em outros países.
            A temática das canções de Fagner daquele período é claramente existencial. Elas falam de angústia, melancolia, desejo de liberdade, sofrimento, solidão, tristeza, conflitos, crises existenciais, falta de sentido para a vida e a morte. Como podemos ver na canção Ave Noturna (acima) do LP homônimo, que ressalta a solidão e o individualismo, “Eu sou igual ao deserto/ Onde ninguém quer viver”. As imagens utilizadas pelo eu lírico do poeta também são extremamente reveladoras. Há uma predominância de referências aos pássaros que é uma alusão ao desejo de liberdade. Aparece também, casa, porta, mesa e viagem que nos remetem a ideia tanto de liberdade como de conflitos familiares e nas relações intersubjetivas. 
          Concluindo gostaríamos de dizer que este pequeno texto faz parte de um projeto maior de pesquisa da obra de Raimundo Fagner que está em andamento. Dividiremos o nosso trabalho em quatro capítulos. No primeiro capítulo traçaremos um pequeno perfil biográfico de Raimundo Fagner. No segundo capítulo abordaremos a obra do cantor dentro do contexto político, cultural e musical das décadas de 1970 e 1980. No terceiro capítulo analisaremos as canções dos três primeiros LPs de Fagner: Manera fru fru manera (1973), Ave Noturna (1975) e Raimundo Fagner (1976). Faremos uma análise e interpretação destes discos pelo fato dos mesmos serem considerados os mais autorais na carreira do cantor. Por último, no quarto capítulo, abordaremos também outras canções interpretadas pelo artista ao longo destas mais de quatro décadas, que tenha relação com a temática que adotamos nesta pesquisa, ou seja, canções de outros compositores ou poetas, onde Fagner coloca seu toque pessoal, imprimindo assim uma marca interpretativa singular na música popular brasileira.

4.    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBIN, Cravo. Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. (Verbete: Fagner). Disponível em:  <www.dicionariompb.com.br>. Acessado em 10 de Agosto de 2017.

ALBUQUERQUE, Célio (Org.). 1973 – O ano que reinventou a MPB: A história por trás dos discos que transformaram a nossa cultura. Rio de Janeiro: Sonora Editora, 2013.

ALMEIDA, Fernando José de. Sartre – é proibido proibir. São Paulo: FTD, 1994.

ANÍSIO, Ricardo. MPB de A a Z. Crônicas, críticas e entrevistas. 2ª Edição. Campina Grande: Latus / EdUEPB, 2013. (Entrevista com Fagner).

FAGNER, Raimundo. FAGNER OFICIAL (Site). Disponível em: <www.fagner.com.br >. Acessado em 15 de Agosto de 2017.

_______ . Ave Noturna. São Paulo: Continental/WMB, 1975.1 disco sonoro. 33 1/3. Estéreo 42 min.

_______ . Beleza. Rio de Janeiro: CBS, 1979. 1 disco sonoro. 33 1/3. Estéreo 38 min.

_______ . Manera fru fru manera. Rio de Janeiro: Polygram, 1973. 1 disco sonoro. 33 1/3.Estéreo 40 min.

_______ . Raimundo Fagner. Rio de Janeiro: CBS, 1976. 1 disco sonoro. 33 1/3. Estéreo 36 min.

GAVIN, Charles. O Som do Vinil. (Entrevista com Fagner). Disponível em: <www.osomdovinil.org/fagner_menera_fru_fru_manera>Acessado em 07 de Setembro de 2017.  

MACIEL, Luiz Carlos. Sartre – Vida e obra. 5ª Edição. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1986.  

MARTINS, Franklin. Quem foi que inventou o Brasil? (3 volumes). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2015.

_______ . Idem. O Livro e o Site. Disponível em: <www.quemfoiqueinventouobrasil.com/o_livro_e_o_site/>.  Acessado em 01 de Setembro de 2017. 

MEDEIROS, Jotabê. Belchior – apenas um rapaz latino-americano. Rio de Janeiro: Editora Todavia, 2017.    

ROGÉRIO, Pedro. A viagem como um princípio na formação do habitus dos músicos que na década de1970 ficaram conhecidos como Pessoal do Ceará. 2011.169 f. Tese (Doutorado em Educação – UFC). Disponível em: <www.repositorio.ufc.br/bitsstream/riufc/3148/1/2011_tese_progerio.pdf>. Acessado em 14 de Setembro de 2017.

SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um humanismo. 3ª Edição. Petrópolis, RJ:  Editora Vozes, 2012.    

TAVARES, Daniel. Scream & Yell (Revista Digital). Disponível em: <www.screamyell.com.br/site/2016/11/01/entrevista_fagner/>. Acessado em 21 de Setembro de 2017.

* foto de divulgação do site oficial de Fagner. 

sábado, 23 de setembro de 2017


Meu artigo sobre contação de histórias no Correio das Artes








terça-feira, 11 de julho de 2017

sexta-feira, 24 de março de 2017

sábado, 4 de março de 2017